Sábado, Agosto 19, 2006

Outro Conceito de Férias

"Algarve…que original."
Chegara no dia anterior e a perspectiva não lhe agradava. Foi com a tirada sarcástica que adivinhou o que seriam umas péssimas férias, quando, estas, prometeriam ser boas, fosse ele outro: bom e grande hotel, a praia a uma curta caminhada de distância, a água mais do que suportável, morna, muita e boa comida, gente com estilo e desnudada como o Verão exige... mas… de interesse? Apenas as raparigas, claro. Algumas engraçadas… muitas, que esta coisa de andar carente fazia com que tudo lhe parecesse melhor que aceitável. Pena que racionalize sempre as primeiras impressões e derive conclusões que o impedem de ser o mero observador, o que aprecia,avalia, comenta e que só depois tenta. E o andar meio cego, fazendo por se esquecer dos óculos de que precisa, também ajuda a concretização da postura supostamente indiferente. O que ele não vê, o coração (e o outro mais sensível e inferior - literalmente) não deseja.
Não lhe era possível competir em nada em que se lançasse; não lhe era possível manter a imagem que não era dele. Se fosse sincero na abordagem, não lhe era possível conquistar o que para os outros parece fácil e naturalmente conquistável. É impressionante como haviam por lá tantos piores no aspecto que ele e que se acompavanham de sujeitas deslocadas... ou tresloucadas ou apenas com um notório mau-gosto. Como em tudo, é uma questão de moral. A sua sensação de realismo leva-o a acreditar que nada lhe era possível – pura desmoralização e talvez pura falta de contacto com a realidade; haverá de certo aquilo de que precisa mas não sob as formas que imagina e deseja: alguém igualmente detestável/agradável (dependerá da perspectiva) que lhe preencha os requisitos e não ultrapasse os seus limites; haverá alguém suficiente algures.
Passados anos e o maior problema deste seu lado continua a ser o mesmo. Algo a resolver quanto antes. Nem que seja pelos piores caminhos. Curiosa a força que esta necessidade tem. Impõe-se por vezes à razão, toldando-lhe o discernimento, quase esgotando as justificações para a iludir, até que surge uma que numa noite parece ser o quanto baste. De manhã,... revela-se como uma fraca desculpa.
Algures no norte, noutras férias, encontra no ambiente e no desconhecimento das gentes o à-vontade que não consegue replicar em nenhum outro lado. Lá é beneficamente parvo e bem disposto. Talvez seja a diferença de não estar acompanhado com quem com ele vive todo o ano. Talvez não…
Aqui, aborrece-se de estar com pessoas mais velhas ou com mais novas, nunca da idade dele, nunca como ele. Muito como em Lisboa, se bem que em casa, há distracções. O mal de não cultivar relações com gente da sua idade, mas com eles também se acha demasiado diferente, incompatível e deslocado – não significando que se ache melhor, mas diferente apenas. Como tal, prefere estar num quarto de hotel, sozinho, a pensar nisto… do que estar a percorrer ruas, experimentando bares ou as actividades do hotel, acompanhado.
Não lhe bastou desperdiçar dinheiro pela Alemanha ou culpar a companhia, o parceiro de viagem, da inexistência de recordações inesquecíveis para a vida que de lá não trouxe. Tinha que por ele mesmo arruinar esta estadia também. Que fim prometeu a essas férias… não deixando de pensar que com outro alguém ou realmente sozinho, seria tudo bem diferente.

Sexta-feira, Março 17, 2006

O meu nome é...

..V...hum, o meu nome é...Vi...devo dizer? Bem, chamo-me Vincent. Minto e antes o fosse. Mas também não me chamo Solignator, obviamente - senão aqui. Conheçam o verdadeiro Vincent, animado por Tim Burton no seu primeiro (pequeno) filme como realizador - que fraco pretexto maravilhoso este para lançar o primeiro vídeo neste espaço!... mas mais que um teste às capacidades do blogger e mais que a melhoria da atractividade de "De Solignator", venho com isto trazer de Tim Burton, e desta pequena história, aquilo que não soube ainda inventar; tento tornar isto mais sombrio e, se de sonhos não se trata (algo que tenho tentado explorar), as imaginações tenebrosas de uma criança não se afastam do que um sonho é... outro mundo burtoniano e não o domínio do Sono, mas não muito diferente do que esse possa ser... :

Terça-feira, Março 14, 2006

Capote (2005) com Philip Seymour Hoffman


Um escritor, com poucos livros editados e mesmo assim popular, procura ainda escrever a sua obra prima. Sem tema e com pouco mais que a vontade para o fazer, descobre num assassínio sem sentido de uma família completa o argumento de que precisava para lançar algo novo na literatura americana. O entusiasmo de estar no caminho certo para escrever um grande livro, leva Truman Capote a uma pesquisa pelos factos que estiveram na origem da morte das quatro pessoas daquela família, resultando dessa mesma pesquisa, e também do seu relacionamento com um dos suspeitos, o seu melhor livro: In Cold Blood.
Embora deste primeiro parágrafo se possa achar que o filme representa a busca de um escritor pelo que ainda não escreveu, pelo que está em si e que poderá surpreender o mundo, precisando somente de ser libertado no papel, "Capote" não desenvolve senão um pouco esse mesmo percurso de libertação ou criação artística. A procura por um estilo novo de escrita, definido pelo próprio Truman como o de romance não-ficcional, perde-se na tentativa (bem conseguida - não pelas minhas palavras pois não conhecia sequer o escritor, mas de quem se lembra do mesmo) de Philip Seymour Hoffman (vencedor do óscar para melhor actor pela sua interpretação neste filme) em retratar com justiça Capote, em todos os seus maneirismos, tiques, estravagâncias, instabilidade de carácter e, sobretudo, na voz peculiar- irritante de se ouvir mas tal e qual como a do escritor por Hoffman retratado. Talvez me engane mas este biopic, na sua própria busca artística, procura muito mais revelar a personalidade egocêntrica, arrogante e excêntrica de Truman Capote (e muitas vezes confusa) do que revelar o processo criativo do livro que veio revolucionar a escrita e que desmistificou a ideia de que uma narrativa factual só deveria ser abordada por historiadores ou jornalistas, através da correcta utilização das técnicas de novelista de descrição e criação de suspense na narração de factos. Só quando Capote se mostra relutante em ajudar os criminosos a escapar da sentença de morte, é que o espectador sente que o fim do livro é artisticamente importante para o escritor - o enforcamento dos criminosos teve muito mais significado para a história do que se esses tivessem ficado impunes do crime cometido.
Truman Capote: I couldn't have done anything to save them.
Nelle Harper Lee: Maybe not, Truman. But the truth is, you didn't want to.


No filme são muitas as vezes em que o espectador fica confuso, parecendo-lhe que Truman é sincero, familiar e preocupado por quem o ouve, quando confidencia experiências suas passadas. Outras, já lhe parece que Truman é completamente superficial, manipulador e extremamente calculista, quando depois o espectador associa a familiariade e sinceridade ao que o escritor consegue obter delas. Assim, este filme é definitivamente uma biografia psicológica (se tal categoria existe) de Truman Capote, escritor que depois de "In Cold Blood" não conseguiu escrever outro livro.
Para finalizar, de dizer que se existiu na ideia de quem realizou o filme provocar no espectador ansiedade, com a protelação, para o fim da película, do desfecho de como os criminosos cometeram o assassínio e o porquê desse crime , essa tentativa de prender o espectador não tem frutos, já que demora muito a surgir e quase que se esquece com o acompanhamento das crises emocionais de Truman.

Segunda-feira, Março 13, 2006

"Pride & Prejudice" (2005) com Keira Knightley


Mr. Darcy: Miss Elizabeth. I have struggled in vain and I can bear it no longer. These past months have been a torment. I came to Rosings with the single object of seeing you... I had to see you. I have fought against my better judgment, my family's expectations, the inferiority of your birth by rank and circumstance. All these things I am willing to put aside and ask you to end my agony.
Elizabeth Bennet: I don't understand.
Mr. Darcy: I love you.

Este filme foi de certeza um dos mais inspiradores e um dos mais envolventes de todos aqueles que vi neste último ano. Tem tanto de inspirador e envolvente que não me achei capaz de escrever sobre o que senti ,ao vê-lo, logo quando o vi. Nem me acho capaz agora. Não escreveria isto pela certeza de que nunca me acharei capaz de escrever sobre "Pride & Prejudice" com justiça e com arte mas, mesmo assim, escrevo pela necessidade de tentar ser-lhe justo no comentário - estando isto em contradição, é facilmente justificável: escrevo a medo para que não se disperse e perca força o que sinto antes de conseguir algo de que me orgulhe, para que alimente o impulso, sabendo que, no fim, não conseguirei nunca orgulhar-me do que escreva. Já tentei ser justo a outros filmes como "Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain" e não achei que o tivesse sido. Outros filmes que me marcaram nem arrisquei sequer uma frase, pelo menos aqui, como aconteceu com "Million Dollar Baby" e "Finding Neverland". A minha escrita perde-se em frases mal construídas, em tentativas fracassadas e em discurso fastidioso, pela falta de quem me leia e me critique. Pela falta de quem me melhore. Todo e qualquer sentimento perde-se pela ausência do mundo nos meus pequenos mundos. Mas são filmes como este que me fazem voltar a sentir, pois levam-me quase a acreditar que existirá proveito em ter quem me acompanhe e por quem ainda espero, os sentimentos por essa presença despertados não se sobrepondo ao intelecto mas complementando-o, instigando-o a conquistas artísticas maiores, tal será a força desse impulso que me guie a textos melhores que este e que aproveitam os sentimentos roubados de obras de outros, já que não tenho como os sentir ou inventar - não tenho a arte e nota-se. Muito confuso tudo isto, pouco ou nada do que quis realmente escrever, mas as palavras certas faltam-me e não consigo descrever tudo aquilo de que sinto falta, quando o que sinto é um estado de pletora de tudo o que não compreendo. A mesma dificuldade sentiu Mr. Darcy. Melhor soube contorná-la, resumindo tudo o que sentia em três palavras apenas. Melhor ainda soube Jane Austen em todo o seu livro, que ainda espero ler. São estas obras que me inspiram e me irritam. Nunca serei escritor pela dificuldade de explanar o que vou sentindo. Nunca serei escritor, serei sempre alguém que escreve.
[para ser continuado, venha de novo o impulso]

Sexta-feira, Março 10, 2006

Son(h)o.II

Não foi dia de descanso.
Embora pouco exercício físico ou mental tenha sido feito, foram-me horas de sono roubadas, alienando-me do decorrer das coisas. Quando se está fatigado pelo sono, não é certo que estejamos acordados. Não é certo que estejamos a dormir. Encontramo-nos num ponto intermédio e não sabemos entre o quê. Pode ser entre o sono e o estar desperto. Ou, então, pode ser entre o estar desperto e o sono. Faz diferença o que vem em primeiro lugar, porque esse lugar é a que estamos mais próximos de estar e ser. Vistas todas as coisas, nunca nos encontramos num ponto verdadeiramente médio, equidistante de dois estados ou de dois extremos. Encontramo-nos sempre a tender para um deles. Por isto, é que me foi difícil, hoje, entender se tinha mais sono do que atenção ou agudez de pensamento. Acho que, ao longo do dia, fui tendendo para um e para outro. Algures depois do almoço, algures no tempo - pouco importa que seja preciso - sei que estive quase a entrar nos domínios do sono mas, por força de vontade, mantive-me afastado, não me deixando tentar, por completo, pelo descanso que umas horas de sono me proporcionariam. Nem seriam horas, mas minutos. Não valeria a pena gozá-los quando estava em trabalho, e isso significa dever de estar atento. Não o estava completamente, é certo, mas ainda estava lá... não estava? Estando nessa posição intermédia, será que posso dizer que estou, um pouco, em ambas? Será que, para um humano ou um animal, é possível estar entre coisas, estar um pouco em cada uma dessas coisas? Deve ser. Afinal, o mundo não é feito só de extremos opostos. Têm que existir meios-termos. Existem e um meio termo, por definição, deverá ser a partilha do melhor de cada um dos dois extremos. Se não for o melhor, deverá ser um pouco, o suficiente que represente um pouco dos mesmos.
Consegui dormir uma hora, comi e quis dormir mais. Não consegui. Se calhar ainda estou no estado que se coloca entre não sei o quê e não sei onde. Não sei, também, ao que me leva. Mas leva-me a estas conclusões.
O cheiro a hospital era forte. Estando deste outro lado da vidraça, ainda se conseguia sentir aquele cheiro único a detergente com desinfectante. Do outro lado, e simplesmente deitado, sem consciência de que o estivesse, o homem de aspecto amarelo nada conseguia sentir. Nem sequer aquele cheiro forte a hospital.
A calma do rosto era apenas ilusória. Quem o observasse poderia vê-la, partilhá-la com o olhar e até deixar-se influenciar por ela. No entanto, não poderia demonstrar que era verdadeira, que calma estaria também a mente e os nervos daquele homem de cor amarela. Deitado, podia muito bem estar em mundos que não aquele. A mente percorrendo sem percorrer, inventando-se noutros lugares. Bem poderia sair deste e não voltar, deixando de si apenas aquele corpo amarelo e um som, esse já não seu, ruidoso e contínuo que indicava a sua partida num écran representando uma linha que deixava de ter altos e baixos. A partida silenciosa que moveria os outros numa azáfama tal que a calma, ilusória, do seu rosto contrastaria incrivelmente e se destacaria naquele frenético movimento de batas, lábios formulando frases, e também de máquinas que tentariam trazer de volta o mesmo que se decidia a partir.
Estando ali, o homem sentia sem sentir as águas de uma qualquer ilha, banhada por um qualquer mar. Provavelmente, nem ilha nem mar mas um pouco de água e um quadrado de areia.
Nunca vira o mar. Esta era a sua primeira vez. Era tal e qual como imaginara. Calmo e grande, a perder de vista, como o memorizara depois de lhe ter sido mostrado um panfleto de uma agência de viagens que fazia descontos em pacotes de estadia em ilhas chamadas paradisíacas. Tal e qual. Azul claro e grande. Ah, e morno, não muito frio, não muito quente. Ideal - era verdade o que os amigos lhe haviam dito. As águas destas zonas do mundo são diferentes. Águas de paraíso, disseram-lhe, e quisera tanto ver se era verdade que hoje ali estava.
E ali ficou, banhando-se naquela água e contemplando o horizonte azul claro do mar e azul escuro do céu. Não sabia há quanto tempo estaria assim. Não sabia há quanto tempo estaria ali. Algum, achou, não muito. Não se lembra como fora ali parar. Esqueceu-se ou nunca o soube. Não se lembrava que estivera noutros lugares que não aquele.
De vez em vez, ouvia uma voz ao longe, sem saber de onde. Houve momentos que achou que viria de cima, do alto. Nalguns desses momentos, dirigiu-se à voz, respondendo-lhe com deferência, pensando que falava com deus. Estranhou, porém, que fosse feminina umas vezes, outras masculina. Sentiu-se de alguma forma incomodado e inquieto que a voz não se assemelhasse ao que imaginou que seria uma voz divina. Mas deus manifesta-se de diferentes formas, lembrou-se. Se calhar, não haveria um deus mas deuses, demasiado ocupados nas suas conversas de palavras estranhas para se dirigirem a ele. "Mais um miligrama de medicamentoterminadoemphamaxouemglicoaspirinaoutericlorina". Era estranho que se deixassem ouvir por ele e que, de vez em vez, durante a maior parte do que seria para ele um dia, partilhassem histórias com um simples humano. Algumas das histórias já as tinha ouvido noutra vida. E a voz que as contava não lhe era estranha. Talvez tivesse conhecido quem lhe contava agora histórias antes de ter ido para a ilha, nesse outro mundo com um cheiro forte a hospital.
Começava já a fartar-se daquela ilha, daquele mar e daquela areia. Areia que nem sequer tinha uma textura diferente do que já alguma vez tocara. Era apenas como serradura, ou assim achava, mole. E no aspecto era mesmo como a serradura, pela cor e reduzido tamanho. Mas estava farto. Já estivera demasiado tempo ali. Levantou-se e virou as costas ao mar. Entrou em casa e notou que estava diferente. Havia uma porta a mais. Abriu-a mas não a passou. Estava escuro do lado de lá. Foi à cozinha buscar uma lanterna, numa gaveta onde a costuma ter. Voltou à porta e apontou a lanterna para o lado negro de lá. A luz não iluminou nada. O negro não era trespassado pelo feixe amarelo da lanterna. Estranho. Decidiu entrar e sentiu-se... na mesma. Não o assustava a negritude daquela escuridão, perdoe-se a redundância. Fez com que olhasse, sem ver realmente, para todos os lados. Tentou descobrir que tamanho teria aquele compartimento. Não conseguiu, porque não se atreveu a sair de perto da porta. Era, de certo, maior que o comprimento dos seus braços. Olhou para o que seria o chão. Olhou para o que seria o tecto. Não viu nada. Saiu e fechou a porta. Que estranho, pensou. Que estranho...
Afinal, o corredor solitário só quis silêncio e a escuridão permiti-o. Fechou-se num compartimento escuro e ali se deixou ficar. Não compreendou porque razão viu uma luz ao fundo do túnel onde se decidiu a estar. De qualquer forma, não demorou muito a ficar de novo na penumbra total. [S.P.]*
(iniciado em 28 de Dezembro de 2005, e continuado esporadicamente, quando me apetecia. A data da tua última alteração é a data associada ao post; * indica o momento sujeito a alterações ou a acabamento)

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

"Walk the Line" (2005) com Joaquin Phoenix


Filme biográfico sobre parte da vida de Johnny Cash, ícone da música country americana, desde a sua infância à sua ascensão como lenda. Diferente de outros biopics como o de Ray Charles - pelo menos para europeus como eu que desconheciam por completo a existência de Cash até que se realizou este filme - este é uma agradável surpresa pela descoberta da música country, de letras simples, histórias alegres ou tristes, de ritmos bem melódicos e agradáveis, por vezes acelerados e levantadores da moral como "Get Rythm". Verdade que este acaba por ser semelhante a "Ray", pela vida que cantor e pianista tiveram, mesmo na infância quando perdem um irmão e se sentem de alguma forma culpados pela sua morte, a culpa acompanhando-os vida fora, ou quando atingem o topo na carreira e entram em declínio pelo consumo de drogas, chegando perto da morte e reaparecendo mais tarde revigorados com a ajuda da mulher que sempre os acompanhou (June Carter por Johnny Cash e Della Bea Robinson por Ray Charles), ou pelos casamentos pouco felizes em certos momentos das suas vidas, pela força que a música significava, pelo sucesso, por terem sido ambos muito pobres, originários de um mesmo meio agrícola e árido, por terem conquistado e reconquistado o topo depois do declínio, por ainda permanecerem vivos depois das suas mortes, representando, de certo, para muitos, americanos e não, marcos no tempo e na vida de cada um. Retratos biográficos estes que demonstram a força que o dom de alguém tem na vida do mundo, influenciável e sensível só aqueles que se distinguem dos outros e do sacrifício que essa distinção representa para esses, melhores que os outros.
Mas, como disse, gostei mais do biopic "Walk the Line" - mais um, nesta altura em que proliferam com qualidade e grandes interpretações, para gosto de muita gente - talvez por essa surpresa que representou, já que conhecia algumas músicas de Ray quando o vi e de Cash nada conhecia, ou talvez pelo tipo de música e pela excelente voz de Joaquin Phoenix, que tem um grande papel, sendo justo na sua interpretação tanto quanto sei, assim como Reese Whiterspoon, ambos escolhas dos próprios cantores que morreram antes de terminado o filme. Daí que durante a película, esperava sempre por esta frase, que precedia as músicas:
"Hello, I'm... Johnny Cash"
Deixando depois levar-me pelos grandes momentos do filme - sim, porque eram estes, os musicais. Porque são muitas as músicas de que se gosta: "I Walk the Line", "Ring of Fire", "Cry Cry Cry", "Folsom Prison Blues", "Cocain Blues", "Time's a Wastin" ou "I Got Stripes", mas claro que o melhor se passa na prisão de Folsom, durante a gravação ao vivo do albúm que ultrapassou, em vendas, ao dos Beatles, na altura.
O filme começa excelentemente, e não fosse a grande qualidade do som do cinema a que fui ver e não teria o mesmo impacto, pois as cenas iniciais em que há um crescendo da música, enquanto nos aproximamos do lugar de onde está a ser tocada, guiados pela prisão a dentro, para depois ver os prisioneiros participando no ritmo, batendo o pé, esperando pela entrada de Johnny Cash... ah, soberba e muito bem pensada e dirigida. Enfim, é impossível sair deste filme sem entoar um ritmo de uma das músicas repetidamente durante o tempo necessário para percebemos que já não estamos numa sala de cinema...

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

"Brokeback Mountain" (2005) de Ang Lee



Dois homens formam uma dupla de trabalho para cuidar de um grande rebanho nas pastagens altas de Brokeback Mountain, trabalho que exige sacrifícios nas condições mais duras e adversas que a montanha tem para oferecer. Um deles, noivo, com casamento marcado para depois de terminado o trabalho. O outro, aproveitando novamente aquela oportunidade sazonal para ganhar mais algum. Ambos a precisar de vencer na vida, com passados difíceis, esquecidos ou pouco falados, futuros pouco promissores e um presente em que a família não é porto seguro para nenhum deles. Um de nome Ennis Del Mar (personagem interpretada por Heath Ledger) e o outro, Jack Twist (interpretado por Jack Gyllenhaal) - e tem sentido que este assim se chamasse, tal é a sua importante influência na mudança da aparente normal (sem qualquer juízo de valor quando o deixa de o ser) relação de companheirismo necessário entre os dois cowboys. Pena que não exista nenhum verdadeiro twist na história e tenha ido ver o filme sabendo bem o que esperar. Perdeu-se qualquer surpresa para o momento em que Jack enceta - pois é ele que toma a iniciativa, embora com o consentimento de Del Mar - a estranha relação que depois mantêm durante anos. Estranha não para o espectador (ou pelo menos, não para todos) de hoje em dia, mas para Ennis que, dos dois, revela-se sempre como o mais reprimido e cauteloso. Mas perdeu-se essa surpresa pela publicidade que se assistiu ao filme e pela forma como foi publicitado e falado pelas pessoas: "Um filme de cowboys...gays..." seguido de "Epah, cuidado com isso" ou "Vai ver com uma gaja para não levantares suspeitas".
O filme começa com o primeiro momento em que os dois estão num mesmo lugar, daqueles áridos que parecem existir em grande número pela América fora, esperando pelo que será o futuro patrão, o primeiro a saber do segredo que partilharão na montanha de Brokeback. Jack demonstra logo um estranho interesse em observar Ennis e quando lhes é dado o trabalho, a cada um as suas funções, é também ele que se mostra mais interessado em falar e em criar uma relação. "O que ele quer sei eu" dirão alguns, pelo menos quatro, e parece-me que parece ser a verdade.

Jack Twist:
Jack Twist.
Ennis Del Mar: Ennis Del Mar.
Jack Twist: Your folks just stop at Ennis?
Ennis Del Mar: Del Mar.
Jack Twist: Nice to know you, Ennis del Mar.

São alguns os minutos em que se assiste ao mero quotidiano da vida na montanha em que Jack e Ennis vigiam as ovelhas durante o dia, separando-se ao fim da tarde para que Jack as reúna no local onde irá dormir e Ennis prepare o jantar dos dois, reencontrando-se nessa altura no local onde o último está acampado, voltando-se a separar para cada um dormir no lugar destinado. "Há sempre um que veste as calças e o outro o avental!!!" mas eram estas as condições impostas pelo contrato e é Jack que o tenta quebrar ("À bruta, hein?!"), para que se aproxime de Ennis, quando sugere que dormissem ambos no mesmo lugar para que se evitassem as frequentes viagens entre um acampamento e outro, distantes, poupando-se horas e esforços ("...os das viagens, pelo menos"). A sugestão passa despercebida, Ennis não compreendendo as subtis intenções que a justificavam e trocando de funções com Jack ("Hmmm, estou a ver, o outro por cima, 'xacto, 'xacto!"), fazendo ele as viagens entre acampamentos, de noite e de dia, para comer ("Olha a linguagem! Diz-se: fazer o amor"). Foi sempre esta a impressão que tive de cada momento que Jack Twist surgia, pelos olhares que lançava a Ennis, pela atitude, pelas sugestões ("Pelas gayzices")... Era ele que estava certo do que queria, certo da sua sexualidade e das emoções que o assolavam, mas não achei que fosse por qualquer sentimento nobre, amor ou o que fosse, mas pela necessidade física que outro homem nele despertava ("ui, tem mas é cuidado como escreves!"). E por isso, sem surpresa, quando as condições se mostraram favoráveis, depois de Ennis mal se manter de pé ("Ai, chama-lhe Ennis?"), pelo alcóol ingerido, incapacitado de fazer a viagem de regresso à sua tenda e fica para dormir no acampamento de Jack, assisti à primeira "cena de amor" do filme e da minha vida ("primeira e última, espero") entre pessoas do mesmo sexo. E ainda fui ver isto ao cinema... Se ainda fosse entre mulheres, ainda vá que valia o dinheiro gasto, mas com homens em cowboyadas??? - Esta minha atitude de humor fácil e tipicamente masculina, repetida em alguns parágrafos com tiradas banais e também típicas entre conversas de gajos é justificável: perante temas desta envergadura (ahaha, já estou a cair na ordinarice mas é inevitável...), um homem só pode querer reforçar que é macho e que ridiculariza todas as relações que não se assemelhem à que tem, ou quer ter, com a sua gaja. No fim, o homem irá sempre lançar uma gargalhada de gozo ao ver dois homens em tais actos ou, então, questionar-se porque razão os cowboys necessitados foram optar pela homossexualidade em vez de pela sodomização à bruta de uma ovelha fÊmEA (há que reforçar bem isto com recurso à redundância), já que havia tantas, optando assim pela zoofilia. Porém, alguns mais sensatos, homossexuais ou não, saberão que não é uma questão de escolha. Se o fosse, alguns optariam não pelas ovelhas, não pelo homem mas por estarem mansos e castos, escapando dos castigos que a sociedade aplicaria por um ou outro acto. É este tipo de impulso, com um quê de homofóbico do homem hetero que levou alguns dos espectadores a sorriem e a rirem-se nos momentos mais incómodos do filme, esses em que houveram beijos e um pouco mais que isso. Aos que foram acompanhados de outros homens e assistiram ao filme sem namorada, havia a necessidade de lançar tiradas sarcásticas não fosse, talvez, o momento tornar-se demasiado desconfortável. Para os que não tinham a sexualidade em risco ou um gosto infantil em comentar tais cenas, assistiam apenas ao drama que se desenrolava e que, por acaso, tinha como protagonistas homens que se gostavam.
Voltando a esse primeiro momento em que Jack e Ennis se tornam amantes, deixando as piadas (sem piada) de lado, o drama ganha maior densidade por ambos aparentarem ser homens como todos os outros, não o sendo apenas pela orientação sexual, que Ennis nega agressivamente, uma primeira vez, quando compreende o comportamento de Jack quando estão dormindo juntos e este se sugere, mas depois parece não conseguir controlar-se e acede ao desejo. Depois disso, Ennis ainda se mostra relutante em falar do sucedido e quando a oportunidade surge, ambos prometem não falar mais dessa experiência por só a eles dizer respeito.

Ennis Del Mar: I figure we got a one-shot deal going on here.
Jack Twist: It's nobody's business but ours.
Ennis Del Mar: You know I ain't queer.
Jack Twist: Neither am I.


Pareceria que com estas palavras, a relação começara e acabaria ali mas não é assim que acontece e repete-se novamente mas, nessa vez, por iniciativa de Ennis. E porque: Love is a force of Nature parece ser uma boa explicação para alguns e, para eles, necessárias não eram as explicações, apenas o que sentiam e nada mais, tal devia valer por si só o impulso do momento, a relação quebra depois de terminarem o trabalho prematuramente, pouco tempo depois do patrão os ter visto juntos, e durante quatro anos não se vêem mais. Mas num reencontro, passado esse período, tudo parece voltar ao ponto em que tinham deixado. Porém, com o passar dos anos, vinte ao todo, tornam-se cada vez mais difícieis as combinações dos momentos em que estariam juntos, porque durante o período em que estiveram separados, ambos casaram e tiveram filhos, em diferentes e distantes regiões dos Estados Unidos, levando a vida que qualquer outro homem levaria, ainda que com um sentimento de insastifação, sobretudo em Ennis.
O filme tem algumas cenas que provocam sorrisos (não dos outros) porque são alguns os momentos em que Jack ou Ennis se sentem desconfortáveis com banais tiradas, usuais em situações típicas e que ameaçam de alguma o seu segredo:

Jolly Minister:
You may kiss the bride - and if you don't, I will.

Lureen Newsome: What you waiting for? A mating call? (depois de esperar que Jack Twist tomasse a iniciativa e a abordasse no bar)
Ou como outras, repletas de maldade:
Joe Aguirre: You boys sure found a way to make the time pass up there. Twist, you guys wasn't gettin' paid to leave the dogs babysittin' the sheep while you stem the rose.
Curiosa e inteligente é a forma como, no filme, é desmistificada a ideia de que um homem, com este tipo de orientação, não o é de facto e que nunca poderá ser chefe de família, por exemplo. Talvez tenha sido por isso que a história ronda a vida de dois cowboys, um que é fazendeiro e o outro cavaleiro de rodeo, retratos do que serão os "verdadeiro machos" segundo a perspectiva americana - em Portugal, temos o forcado.
Ainda a acrescentar a tudo isto o filme deve ser visto tento em conta que naquela altura, anos 60 e 70, a homossexualidade não era encarada como é hoje e que as complicações de manter uma relação homossexual muitas vezes levavam a grandes consequências. O drama parece ganhar maior dimensão por estarem os dois casados, por terem filhos, por estarem longe e por haver traições na relação cometidas por um deles, as necessidades físicas revelando-se diferentes e de intensidades distintas de um para outro. Revelei já muito do filme, mas não revelo o final - só digo que fica em aberto e que deixa a cada um imaginar o que terá sido prometido. É um bom filme a meu ver, mas mesmo assim não o acho o melhor filme do ano. Pouco me diz, pelos mesmos motivos que "Munich" me diz pouco. Há outro filme que segue as mesmas linhas e que foi igualmente polémico e aclamado: "Boys Don't Cry", diferente mas igual ao mesmo tempo. Bem, aqui ficam algumas frases e diálogos mais dramáticos do filme e esqueça-se o resto:

Ennis Del Mar: If you can't fix it, you gotta stand it.
Ennis Del Mar: What you can't change, you've just got to ride out.
Ennis Del Mar:I'm gonna tell you this one time, Jack fuckin' Twist, an' I ain't foolin'. What I don't know - all them things I don't know - could get you killed if I come to know them. I mean it.
Jack Twist: Yeah well try this one, and I'll say it just once!
Ennis Del Mar: Go ahead!
Jack Twist: Tell you what, we coulda had a good life together! Fuckin' real good life! Had us a place of our own. But you didn't want it, Ennis! So what we got now is Brokeback Mountain! Everything's built on that! That's all we got, boy, fuckin' all. So I hope you know that, even if you don't never know the rest! You count the damn few times we have been together in nearly twenty years and you measure the short fucking leash you keep me on - and then you ask me about Mexico and tell me you'll kill me for needing somethin' I don't hardly never get. You have no idea how bad it gets! I'm not you... I can't make it on a coupla high-altitude fucks once or twice a year! You are too much for me Ennis, you sonofawhoreson bitch! I wish I knew how to quit you.
Ennis Del Mar: [crying] Well, why don't you? Why don't you just let me be? It's because of you that I'm like this! I ain't got nothing... I ain't nowhere... Get the fuck off me! I can't stand being like this no more, Jack.
[last lines] Ennis Del Mar: Jack, I swear...